quinta-feira, 24 de dezembro de 2009

Let it rain

Olho pela janela e entretenho-me a ver alguém que passa a fugir da chuva que nao se cansa de cair. Passado uns momentos observo crianças bem vestidas ansiosas pela chegada desta noite. Continuo a ver a chuva a cair e os rios a formarem-se junto das árvores. Vai passando gente apressada com prendas na mão e sacos que nunca mais acabam. As pingas escorrem pelos vidros como se fossem lágrimas a percorrer um rosto. A menina está a a pintar muito sossegada, e eu quase que me esqueço dela.
- Qué estás mirando? - pergunta ela com o seu sotaquezinho espanhol que eu tanto gosto.
- Nada. Estou a ver as pessoas.
- Estás pensando?
- Sim - sorri.

Mas não há motivo para sorrir, a não ser ela. Não vejo nenhuma luzinha no fundo do túnel, nem algo parecido.

À medida que fui lendo aquele texto que mexeu tanto comigo, o meu interior foi-se esvaziando a pouco e pouco. Nunca pensei que certas palavras fossem capazes de tirar toda a vida aos meus sonhos e, pior ainda, desfazê-los. Nunca pensei que ao ler umas linhas me sentisse tão inútil como me sinto agora. Sim, é assim que me sinto. E podem achar que estou a fazer uma tempestade num copo de água, mas é assim que me sinto. Já não tenho forças para continuar uma luta contra o meu próprio eu. Uma luta que tudo e todos me encorajaram a fazer e agora, por ler um texto, rendi-me.

Depois ela veio olhar para a chuva comigo. Pôs-se de joelhos, colocou as mãozinhas no vidro e observou a paisagem.
- Mira! El agua se desliza .. Parece que es el mar - diz a miúda.

Aproximou-se da janela e soprou ar quente embaciando o vidro. Tentou fazer um desenho com os dedos mas não conseguiu. Pegou numa caneta e continuou a desenhar.
Não parei de olhar para lá para fora, mas na verdade estava a olhar para o infinito e a pensar no que ia fazer a seguir, mas não cheguei a conclusão nenhuma.

domingo, 20 de dezembro de 2009

Em palco

http://www.youtube.com/watch?v=PfNwO9HNqh4

Tenho uma enorme vontade de voltar a pisar um palco quando vejo estas coisas. Relembro todos os momentos por que passei, todos os tremeliques pelo corpo e borboletas no estômago nos bastidores. O cheiro a resina que pairava no ar durante os ensaios, as ameaças ("quem não vier não entra no espectáculo!"), as risadas marotas que de vez em quando surgiam, as piadas que só nós percebíamos...tenho tantas saudades. Saio de bailados com uma vontande enorme de calçar umas pontas e ir dançar, nem que seja só um bocadinho. Vejo musicais e só me apetece cantar e dançar. Sou uma menina. Uma menina medricas que o máximo que consegue fazer é cantar pela janela. Que se contenta a olhar para um ecrâ e ver os outros divertirem-se, ou estar sentadinha na cadeira e observar pessoas a fazer coisas que eu podia muito bem estar a fazer. Uma menina que não tem coragem, uma menina que não cresce nem em tamanho nem em mentalidade.
E ela continua a ser assim, porque falar é fácil, porque os nervos apertam, porque sozinha nao consegue fazer nada. Tenho pena dela.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Castanhas assadas



Estava tudo doido por compras. Pessoas apressadas, crianças a pedir tudo aos pais, um exagerado número de músicos tocavam alguma coisinha para receber uma moeda em troca. É Natal, pensei eu. As ruas estavam todas decoradas, com bolas gigantes a pairar do ar, luzinhas ansiosas para que chegue a noite...até que um cheiro familiar me entra no nariz. Aquele cheirinho que até nos faz fechar os olhos para o poder apreciar ainda melhor. Castanhas. Eu sei que já passou o S.Martinho (o que torna o espírito natalício ainda mais estranho) mas deu-me uma vontade enorme de segurar naquele papel de jornal enrolado e sentir o calor delas nas minhas mãos.

E assim fiz. Tornei o meu desejo realidade e enchi a barriga até não poder mais. Ainda me estava a fazer confusão o facto de estar uma música de Natal a tocar e eu estar a comer castanhas. Mas também é um exagero agora, o Natal dura uns 3 meses ou à volta disso. E, tal como uma vez me disseram, se não se souber que é Natal basta ligar a televisão e ver se está a dar o Sozinho em Casa. Concordo plenamente.

domingo, 6 de dezembro de 2009

Corrente inesperada


Noutro dia ouvi uma conversa sobre lagos. Sei que parece conversa de doidos,mas não foi. Antes pelo contrário. Alguém disse que a riqueza de um lago estava no seu fundo e que, se a água estivesse agitada, nao podíamos ver o interior dele. Mal ouvi isto, associei os lagos às pessoas. É practicamente a mesma coisa.
Quando conhecemos alguém, temos tendência a turvar (não sei se é o termo mais correcto) a nossa própria água. Tudo por uma questão de protecção. Mas ao longo do tempo, habituamo-nos a deixar a água calminha, pura, transparente. E só assim mostramos quem realmente somos,a quem realmente (nos) merece. Mas também há quem nao tenha nada no fundo do lago, ou quase nada. E para disfarçar isso, o barulho das ondas nunca pára,para niguém reparar.
Mas eu reparo. Reparo logo naqueles lagos e lagoas que, por mais que se semicerre os olhos, não se consegue ver o que realmente existe lá em baixo e que não quer ser mostrado: ou porque nao existe ou porque é pouquinha coisa. Não gosto muito de nadar nesses lagos. Lagos esses que, quando já se consegue ver alguma coisinha brilhante no fundo, puxam-nos através de uma corrente forte e deixam-nos na margem ao frio e na escuridão.
Isto tudo por causa daquela conversa que eu ouvi, nao sei a que propósito mas ouvi. E fez-me pensar. Muito.