sábado, 29 de agosto de 2009

Vazio

Sinto há três anos uma dor enorme cá dentro. Tenho de desabafar e escrever tudo o que aconteceu naqueles dias pesados, que não pareciam ter fim.


Tinha treza anos. Ainda na casa antiga, era hora de jantar, um daqueles dias todos iguais.
De repente, a minha querida mãe rompe o silêncio."Tenho de ir para o Porto, a M........ teve um acidente". O meu coração disparou. Vieram-me à cabeça montes de perguntas, mas nao havia tempo para as fazer. Ainda lhe fiz algumas, o que fez com que o meu pai se irritasse e gritasse comigo e com a minha irmã a dizer que só sabíamos exagerar. Quem me dera que tivesse sido isso..
Ficámos os três a jantar. Aquelas refeições em que só se ouvem os talheres a bater nos pratos e que se prolongaram até aos dias de hoje. A seguir ao jantar fui-me deitar, tinha a cabeça a abarrotar de pensamentos. No dia seguinte reparei que a minha mãe nao tinha dormido em casa, pois a mesa nao estava posta naquela cozinha fria.
Fui para as aulas com um peso no coração. Contei a uma amiga minha o que se tinha passado e pedi-lhe para ela no intervalo vir comigo ligar à minha mãe. Lembro-me como se fosse ontem.

«Como é que ela está?»
«Muito mal, filha...»
«Mas, está em coma?..»-perguntei com medo
«Sim»

Parou tudo: a brisa que corria levemente, os gritos dos miúdos, o andar da minha amiga, o próprio tempo...Nem queria acreditar no que tinha ouvido. A minha amiga estava tão assustada quanto eu. Na aula de matemática estava noutro mundo. Só ouvia 'xis', 'ipslons', 'pis'...prendi o choro o dia todo.
À noite recebemos a notícia de que te tínhamos perdido, Maggie. Parecia um pesadelo, daqueles em que nao se consegue acordar. Tinha acabado de perder uma grande amiga, talvez a melhor que já tive até hoje, e nao parecia realidade.Nunca me vou esquecer das idas malucas ao cinema, das saídas com os primos, das músicas do natal, das histórias de terror que inventávamos, das noites em claro em tua casa, das gargalhadas que dávamos sem razão nenhuma. E claro, nunca me esqueço daquela vez em que estava contigo no carro da tua mãe e te espetaste contra um bloco de cimento. Saíste do carro a correr e entraste nele novamente com um pedaço do pára-choques na mão. Ficámos as duas a olhar para aquilo e de repente vemos que a tua mãe tinha visto tudo pela janela, a abanar a cabeça. Seguiste com o carro, comigo ao teu lado, juntamente com um ambiente tenso e seco em silêncio. De repente desataste a rir-te que nem uma doida, até me assustei. Quando conseguiste parar de dar valentes gargalhadas, limpaste a cara das lágrimas provocadas pelo riso e disseste: " É impressionante! Eu e o Zé estamos sempre a estragar o carro todo, isto é incrível!". Também nao me consegui conter, e ri-me contigo.
Bem, que saudades destes momentos. Nao imaginas a falta que todos sentimos de ti minha querida. Deixaste um vazio enorme cá em baixo. Ao menos estás feliz aí em cima e livre que nem um passarinho!

Só te digo uma coisa, quem me dera ter ido de mão dada contigo. (palavras do teu pai)

E penso em ti todos, mas todos os dias.

7 comentários:

  1. Olá, Luísa! Escrevo este comentário não para dizer que estive no teu blog mas sim como um amigo, um grande amigo! Nunca soube desta passagem da tua vida, que deve ser uma das piores passagens da nossa vida! Que é perder os que nos são próximos e que nós tanto, adoramos, amamos, respeitamos...
    Por isto te escrevo para mostrar a minha amizade, solidariedade para contigo e não só também aos teus parentes. Nunca passei por uma situação assim, mas também não quero passar, mas um dia …
    É isto que um amigo faz !!!

    P.S. Sempre que precisares… sabes onde me encontrar!


    Do teu amigo João

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  2. Este comentário foi removido pelo autor.

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  3. Luisaa, que bom encontrar-te por aqui! :)
    Já tenho saudades...
    Beijinho, *

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  4. Luisinha, na minha humildissima opiniao, este é sem duvida o melhor dos textos que aqui tens. Percebe-se bem porquê. posso estar enganado, mas parece que nem pensaste muito no que escreveste, fluiu-te tudo naturalmente desde o teu coraçao. foi isso que o tornou tão bonito. o facto de escreveres, relembrando este momento, demonstra o forte que és, e por outro lado (e pegando no titulo dum certo

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  5. blog) escrevendo-a, é porque ela existe sempre no teu coraçao.
    Tenho so pena de ainda nao te ter conhecido nessa altura, para te ter podido ajudar. mas prontom, com certeza alguem o tera feito ;)

    Um grande beijinho talentosa luisa ;)

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  6. A vida é mesmo feita de momentos, concordo plenamente com esta frase. Há momentos complicados em que só nos apetece desistir, mas há sempre algum objectivo...
    A vida é feita de momentos maus, é um facto, mas também muito BONS!
    E temos, simplesmente que "desabrochar" um enorme sorriso para esses bons momentos :)
    És muito forte, e comprovas-me isso todos os dias que passam.
    Gosto cada vez mais de ti, como se fosses sangue do meu sangue, e saber que posso contar contigo para sempre é o melhor presente que alguma vez a vida me havia de dar. :)
    Ganhaste uma amiga, (espero vir a ser uma enorme amiga!) e tens-me aqui para sempre.
    Lutas todos os dias, por isso eu espero lutar contigo, e poder ajudar ou consolar em tudo que for preciso.
    És forte, muito forte, e tens um talento incomparável, agarra-te a isso e não deixes nunca que ninguém te o tire, é que é uma "arte" tão aconchegante que por aqui deixas...
    Gosto tanto de ler este teu cantinho!
    E também gosto tanto de ti.
    Estou aqui contigo. Sempre estive aqui e estou sempre aqui.
    Beijo enorme!

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  7. Olá Luisa,
    já te disse isto mas digo mais uma vez: Tu escreves com alma...
    Tens um dom. Um dom nas palavras pois consegues transmitir sentimentos em cada letrinha que escreves...
    O resultado está a vista: um texto emotivo, comovente, cativante e que surgiu exclusivamente do coração...
    Quanto ao conteúdo, quero que saibas que daqui em diante podes contar sempre comigo. Para conversar, desabafar ou até só para insultar...
    Não te quero ver em baixo... Nunca ! (É uma ORDEM !)
    Beijo

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